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O Casaco de Augusta

O Casaco de Augusta

Clara sempre gostou de brechós. Nunca os viu apenas como lojas de roupas usadas. Imaginava que certas peças continuavam carregando as vidas de seus antigos donos. Talvez por isso acreditasse que os objetos conservavam vestígios de quem os possuíra.

Numa tarde muito fria de julho, entrou em um pequeno brechó numa rua meio escondida. O lugar era estreito e mal iluminado. As araras se espalhavam por corredores, e o ambiente tinha o cheiro abafado de tecido guardado por muitos anos.

Num canto, entre peças sem graça, pendia um casaco feminino de lã azul-escura, de corte elegante, embora o tempo tivesse desgastado levemente os punhos e a barra. Clara demorou um instante com os dedos sobre o tecido antes de levá-lo ao caixa.

Voltou para casa, pendurou as chaves, apertou o interruptor da sala antes de lembrar que a lâmpada continuava queimada.
Dobrou o casaco antes de colocá-lo sobre a cômoda.

Naquela mesma noite, ao experimentar o casaco diante do espelho, sorriu ao perceber que lhe servia perfeitamente. Ao enfiar a mão no bolso interno, encontrou uma folha dobrada. Retirou-a com cuidado.
O papel estava amarelado nas bordas, mas a caligrafia permanecia firme e delicada.

"Meu amado,

Não posso mais suportar o silêncio que me envolve desde que você escolheu outra para caminhar ao seu lado. Eu o amei com todas as minhas forças, mas agora só me resta a sombra desse amor. Este casaco foi meu companheiro nos dias em que sonhei com você e será também o agasalho que guardará minha despedida. Quando o frio me envolver por completo, será o último abraço que receberei. 

Adeus, Augusta."

Ao terminar a leitura, Clara permaneceu imóvel.

O ruído distante do trânsito chegava amortecido pela janela fechada. Com a ponta do indicador, contornou devagar o nome Augusta, como se aquelas sete letras pudessem lhe revelar alguma coisa.

Não conhecia ninguém com aquele nome.

Releu a carta. 

Teria aquela mulher realmente pretendido tirar a própria vida? Ou escrevera apenas sob o impulso de uma dor que mais tarde desapareceu? Quantos anos haviam se passado desde então? Augusta ainda estaria viva? Teria envelhecido, construído outra história, esquecido o homem a quem escrevera aquelas palavras?

Durante uma reunião, abriu a agenda para anotar um número. Quando deu por si, repetia distraidamente o nome Augusta na margem da página. O casaco permaneceu pendurado atrás da porta do quarto, mas ela evitava usá-lo. Às vezes, ao voltar do trabalho, sentava-se na poltrona da sala e relia a carta. 

Depois de uma semana de inquietação crescente, voltou ao brechó.

O dono da loja, um homem grisalho de voz calma, reconheceu-a.

— O casaco serviu?

Clara retirou a carta da bolsa.

— Serviu e eu encontrei isto no bolso.

— Nunca tinha visto.

— O senhor sabe quem doou a peça?

Ele balançou a cabeça.

— Recebemos muitas doações. Às vezes vêm de mudanças, às vezes de inventários. Quase nunca sabemos a origem.

Clara insistiu.

— Não existe nenhum registro?

— Infelizmente, não.

A conversa morreu ali.

Ao sair da loja, sentiu uma decepção que lhe pareceu desproporcional. Afinal, tratava-se apenas de uma desconhecida. Ainda assim, saiu do brechó levando uma ausência maior do que quando entrara.

Durante as semanas seguintes, passou a senti-la em toda parte.

Via Augusta nas senhoras que caminhavam lentamente pelas praças, nas mulheres idosas que conversavam nos ônibus, nos rostos anônimos que cruzavam seu caminho todos os dias. 

A carta, já amassada de tanto ser dobrada e desdobrada, parecia a única prova de que aquela mulher existira.

Clara abriu uma pequena garrafa de vinho. Serviu apenas uma taça. O restante voltou para a geladeira. Releu a carta. Percebeu que já não lia as palavras. Lia Augusta. Sem saber por quê, começou a reparar nas mulheres idosas que encontrava pelo caminho.

Poucos dias depois, visitou uma instituição para idosos onde aceitava doações.

Enquanto aguardava atendimento, viu algumas senhoras reunidas numa sala iluminada pelo sol da tarde. Uma delas tricotava, outra lia um livro, uma terceira dormia numa poltrona junto à janela e outra segurava uma fotografia já sem brilho entre as mãos. 

Por um instante, imaginou que Augusta poderia ter envelhecido assim.

Não aquela Augusta criada por sua imaginação, congelada para sempre na tristeza da carta, mas uma mulher real, capaz de sobreviver à própria dor, de cometer erros, de mudar de ideia, de seguir adiante.

Clara sorriu.

Dobrou a carta e colocou de volta no bolso interno do casaco.

Entregou a peça ao atendente e saiu.

Já na calçada, ouviu o sino da porta e voltou-se.

Uma mulher acabava de entrar.

Parou diante do casaco azul.

Vilma Toloto

Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.

Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.

É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.