por Vilma Toloto
Ariadne atravessava Tiria em silêncio. Era início da manhã, a luz do sol amarelava as casas caiadas. Os moradores se debruçavam nas janelas, esperando o início do desafio.
O vento soprava, arrastando folhas secas. Ariadne sentia a poeira se acumular nas sandálias, mas prosseguia sem diminuir o ritmo. Há dias se preparava, apesar do desejo de que esse momento jamais chegasse. O ritual era inevitável, e Minos nunca demonstrara inclinação para favorecer a filha. Em Tiria, sucessão do trono seguia a linhagem familiar. O direito a ele, porém, tinha de ser conquistado.
Minos estava sentado nos degraus do templo central quando ela passou. Manteve-se calado. Apenas inclinou a cabeça, sinalizando o início do desafio. Ariadne precisava trazer uma pedra azul retirada da fronteira. Respondeu ao pai com um aceno curto. Não havia demonstrações públicas de afeto entre os dois. Não porque não existisse, mas porque, em Tiria, demonstrações de afeto eram consideradas fraquezas.
Ariadne ajeitou no ombro a bolsa de tecido bordada à mão. Levava consigo água, um pedaço de pão de cevada embrulhado em pano, dois figos secos, algumas nozes,
uma porção de queijo duro e um pergaminho onde traçara o percurso. Nada mais. O ritual proibia levar armas. O que ela encontrasse pelo caminho poderia ser usado para sua defesa.
Quando deixou para trás a última casa, o céu começou a perder a cor do amanhecer, e o sol ardia sobre o fino tecido do vestido.
Tiria ficava cercada por uma faixa de deserto, mais poeirenta do que arenosa. As pedras espalhadas pelo chão variavam entre tons de ocre e marrom.
Ariadne transpirava pelo esforço da caminhada. Seguiu por algumas horas até encontrar os vinte Leotárquios. Em Tiria, correr diante de um Leotárquio não era covardia: era sentença de morte. Respirou fundo, repetindo a instrução que Minos lhe ensinara desde a infância: quando diante de um Leotárquio te encontrares, lembra-te: jamais corras, jamais o provoques. Ergue o olhar e avança, sem hesitar.
Seguiu com cuidado. Os Leotárquios não rugiam, mas estavam atentos a cada movimento.
Quando chegou ao meio da passagem, um Leotárquio de cabeça dupla se ergueu e soltou um forte bramido. As duas cabeças se agitaram ainda mais, e o chão tremeu com o impacto das patas. Ariadne sentiu o corpo enrijecer. Os olhos azulados da criatura a fitavam, sem o peso do olhar de um predador, mas com curiosidade.
Por um instante, tudo ficou estático. Então o Leotárquio de duas cabeças tornou a sentar-se. O caminho estava aberto. Ariadne manteve o passo firme até o fim da fileira.
Ao passar pela última criatura, sentiu-se mais calma. Virou-se e viu os vinte Leotárquios retomarem a imobilidade anterior.
Após uma longa caminhada, um conjunto de pedras empilhadas marcou a fronteira de Tiria. Eram pedras desgastadas pela erosão e pelas inúmeras mãos que as tocaram ao longo dos anos. Logo adiante, uma abertura escura surgia entre duas rochas maiores: a entrada para a Caverna Ístmica.
A temperatura caia à medida que se aproximava. Antes de entrar, encontrou algumas ferramentas largadas do lado de fora: madeira quebrada, lâminas enferrujadas e, entre elas, um tridente de metal ainda inteiro. Ariadne o apanhou. Sentiu seu peso, os dentes permaneciam afiados. Olhou pela abertura da caverna, apenas escuridão.
Entrou. A Caverna Ístmica cheirava a mofo e terra úmida. O silêncio era denso. Avançou devagar.
O primeiro som surgiu após alguns passos: um arrastar lento, quase imperceptível. Nykar emergiu da escuridão. Não era tão grande quanto os Leotárquios, mas sua presença era mais perturbadora. A pele branca, os olhos vermelhos como brasas. Na cabeça, duas grandes orelhas e dois minúsculos chifres.
A criatura sorriu, exibindo numerosos dentes finos e pontiagudos.
— Atr?r?avessou... meus... guar..r...diões — rascou a voz de Nykar, num arranhar de cascalhos. — Tua cor..r...ragem é não mais que um tremor...r?r... na r... r... rocha. É preciso mais para romper... r...r minha caver...r...r..na.
Ariadne manteve-se calada. Segurava o tridente com firmeza, mas não o ergueu de imediato. Sabia que provocar Nykar poderia ser fatal. A criatura avançou um passo; as garras arranharam a pedra, deixando marcas. Ariadne lembrou-se do que Minos lhe dissera quando criança: à Nykar, a verdadeira ruína não é a do corpo, mas a da vontade: corrompe a decisão, seca o desejo e aniquila o pensamento.
A criatura avançou mais rápido. Ariadne recuou alguns passos, ajustando o peso do tridente. Quando Nykar saltou, ela o ergueu e encaixou os dentes sob o pescoço da criatura, usando o próprio impulso dela contra si. Empurrou com toda a força.
O tridente perfurou o pescoço. Nykar se debateu com violência. O grito ecoou pelas paredes da caverna, multiplicando-se num coro distorcido. Ariadne sentiu o ar esquentar, como se a fúria da criatura alterasse a temperatura ao redor.
Não esperou o grito cessar. Sabia que Nykar não morria, estava apenas contido. O ritual nunca fora sobre matar, mas sobreviver.
Ariadne correu para fora da caverna, apanhou uma pedra azul e guardou-a na bolsa. No céu, a lua grande e vermelha iluminava o deserto. Respirou fundo. Regressou pelo mesmo caminho. Ao passar diante dos Leotárquios, percebeu que observavam sua marcha. Não havia ameaça, apenas reconhecimento.
O retorno a Tiria pareceu mais curto. Ao alcançar a primeira rua da cidade, notou portas entreabertas. Habitantes espiavam pelas frestas, tentando confirmar se o que viam era real.
No pátio central, Minos aguardava sentado nos degraus do templo. Diante da aproximação dela, levantou-se com a lentidão solene de quem vê um ciclo completar-se.
Ariadne entregou-lhe a pedra azul colhida na fronteira. Minos se aproximou; os olhos percorreram o rosto e as roupas da filha, o pó acumulado, a respiração ainda irregular, a tensão nos músculos e algo novo, mais profundo, que não tinha relação direta com a vitória, mas com o que ela descobrira sobre si mesma: a própria força.
— Os Leotárquios concederam-te a passagem? — perguntou.
— Sim. E Nykar tentou me impedir. Mas está preso pela garganta.
Minos fechou os olhos por um instante.
— Durante décadas — disse ele — nenhum retornou. Força houve, e houve sabedoria, mas falhou a todos a visão do que verdadeiramente se colocava à prova.
Quando Tiria foi fundada, as autoridades ordenaram aos Leotárquios que guardassem a cidade. Eles aceitaram com uma condição: que a quem a cidade fosse
confiada estes deveriam ser testados, para que ninguém assumisse o cargo movido pela vaidade ou pelo medo.
Minos pousou uma mão firme no ombro da filha.
— Intuiste o que a poucos é dado. A prova não reside no músculo ou no ímpeto, mas no governo de si. Os Leotárquios não barram o intruso, barram o tirano interior.
Ariadne o observou em silêncio. Então Minos deu um passo atrás e inclinou a cabeça num gesto que nenhum governante fazia senão diante do próprio sucessor.
— A cidade, minha filha? por fim, é sua.
A praça permaneceu em silêncio para acolher a nova governante. Ariadne sentiu o peso do momento. Não pensou nos que fracassaram antes dela, nem na expectativa do povo. Pensou apenas no maior desafio que estava por vir.
Tiria, agora, aguardava sua voz.
25/12/2025
Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.
Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.
É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.