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O Renascimento de Luisa

O Renascimento de Luisa

por Vilma Toloto

Diziam que o relacionamento amoroso deles ficara em Lisboa, perdido nas páginas de um romance. Mas o tempo, caprichoso, quis trazê-los de volta e, um século depois, o avião pousava em Guarulhos.
O ar úmido de São Paulo lembrava as tardes abafadas do verão lisboeta. A viagem fora estafante: embora o avião fosse grande, tudo parecia pequeno para o vestido longo e engomado de Luísa que mal conseguia caber no minúsculo banheiro da aeronave.
Por alguns instantes, enquanto aguardavam as bagagens uma angústia tomou conta de Luísa: — será que agora, vivendo ao lado de Basílio todos os dias, eu perderei o encantamento por ele? Pensou no brilho de um homem viajado, elegante, mas que nada construía. Ao contrário de Jorge, que era prático e trabalhador.
As malas que trouxeram eram pesadas, tal qual o peso da culpa. Luísa estava confusa e não se desvencilhava das cobranças — Estaria Jorge sofrendo? Teria ele realmente me perdoado? 
O que confortava Luísa era lembrar-se do quanto fora solitária antes do primo começar a frequentar sua casa. Jorge a deixava semanas sozinha, mas voltava sempre com aquele ar de marido fiel, doce e carinhoso.
Com o passar do tempo no Brasil veio a decadência. Basílio se deu conta de que o dinheiro estava acabando. Alugou um apartamento pequeno e simples, bem parecido com o "Paraíso", refúgio dos amantes no passado. Andava preocupado e irritado, passava os dias imaginando planos mirabolantes como: abrir uma startup, investir em tecnologia, ou coisa similar. Apesar de sempre ter sido um burguês desocupado acreditava que podia ter sucesso. Luísa comentou sobre abrir um café-livraria, mas Basílio alertou que o dinheiro que ainda lhe restava mal daria para o aluguel e a alimentação.
O som irritante das buzinas das motos, das freadas bruscas dos ônibus, o grito das crianças que brincavam nos corredores do prédio deixava Luísa muito irritada. As noites agora eram só para dormir, cada um deitava silencioso no seu canto.
Juliana, sua faxineira quinzenal, chegou atrasada e foi logo se desculpando:
—Esta cidade é infernal, o metrô ficou parado por meia hora.
Luísa fingiu acreditar, mas respondeu friamente:
— Você podia ter me enviado uma mensagem no celular.
E, num tom mandatório, completou:
— Amarra meus sapatos e, depois que eu sair, lava todas as minhas roupas à mão. Nada de lavadora, que destrói os meus vestidos.Juliana fingiu não ouvir e pensou: em que mundo essa mulher acha que vive? No século XIX?
Assim que Luísa saiu, Juliana colocou todas as roupas na máquina e murmurou:
— Foda-se, nem é responsabilidade de uma faxineira lavar roupa.Num domingo, Luísa foi sozinha ao Parque do Ibirapuera. Sentou-se no gramado, à sombra de um ipê amarelo, e abriu um livro: As mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés. A moça da livraria lhe dissera que essa obra era amplamente lida no contexto feminista contemporâneo.As pessoas pareciam distraídas, sempre com os olhos fixos nos celulares. Por um instante, Luísa pensou ver Jorge na tela do seu próprio aparelho, mais velho, cabelos grisalhos, mas o mesmo olhar abobado. Fechou os olhos e o ouviu dizer: — Ainda acreditas que fugir muda o destino, Luísa?Logo percebeu que era apenas sua imaginação criando diálogos com o passado. Era como um eco atravessando o Atlântico.Naquela noite, Basílio não voltou para casa. Ao fim das contas, Luísa estava novamente sozinha, como quando era casada com Jorge. Basílio saía cedo, voltava tarde, às vezes cheirando a perfume feminino. E ela, especialista no assunto, sentia o cheiro da própria história se repetindo às avessas. Talvez fosse apenas uma personagem insistindo em existir num tempo que já não era seu.
Sentia-se só e por um momento, comparou o apartamento frio e pequeno ao da Rua das Janelas Verdes. Fechou os olhos e, de repente, rememorou a antiga casa: o perfume discreto das violetas no parapeito, o toucador coberto de rendas, o leque aberto sobre a colcha, o retrato de Jorge sorrindo, o canapé azul, os bibelôs e as cortinas francesas rendadas. Na casa antiga, cada objeto tinha memória, lembranças, sonhos, saudades. Queria tocar novamente a toalha de crochê, sentir o perfume do quarto, ouvir o ranger suave da porta. Mas não podia. Restava-lhe apenas a memória doce e dolorida, ponte entre o tempo que viveu e o tempo que observava agora. Tudo era delicado e cheio de vida. Nada naquele apartamento paulistano, minúsculo e sem alma, lhe trazia o aconchego. 
O diário de Luísa veio com ela. À noite, escreveu:
"Eu não morri. Estou tentando começar a viver, mesmo que tarde. Jorge, se ainda pensas em mim, saiba que já não sou tua.  Sou apenas uma mulher que atravessou séculos para entender o que é a vida longe da dependência numa sociedade burguesa e patriarcal, da ociosidade nos longos dias sem nenhum argumento de vida, longe da relação monótona contigo e das chantagens de Juliana, a criada nojenta."Do lado de fora, a metrópole continuava a pulsar, quente, barulhenta, cinzenta e, por vezes, assustadora. Pela primeira vez, Luísa percebeu que talvez houvesse sentido em ter atravessado os séculos para aprender que a verdadeira liberdade não está em fugir do lugar, mas em parar de fugir de si mesma.

Vilma Toloto

Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.

Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.

É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.