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Devagar se vai ao longe

Devagar se vai ao longe

por Virgínia Maura Martins Ferreira

 Devagar se vai ao longe

 

           Às vezes, fico absorta olhando as árvores, que estão paradas e tranquilas, ou que balançam ao sabor do vento. Outras vezes, eu me sento em um banco de praça qualquer e observo as pessoas que passam apressadas. Centenas delas, cada uma é um universo cheio de desejos, angústias, sonhos, medos, vitórias, derrotas, tristezas e alegrias. E fico pensando: para onde vai toda essa gente? O que pensam? Quais são as suas histórias? O que fazem na vida? Têm filhos? Vivem sozinhas? São tantas perguntas.

          Essas pessoas estão correndo, correndo. Às vezes, encontram amigos pelo caminho, mas não têm mais tempo para conversar, pois o tempo cronometrado dos compromissos está acabando, prestes a engolir suas vítimas.

         Muitas vezes, fico observando o mar em sua imensidão e tranquilidade. Ele está sempre ali, com suas águas indo e vindo, sendo influenciado pela lua, que causa as marés altas e baixas, assim como na própria vida.

         A correria, a pressa constante e a falta de tempo estão consumindo as pessoas, transformando-as em robôs, guiadas pelos compromissos que são muitos.

        Trabalhar até o limite das suas forças para comprar aquele carro que viu na concessionária ou trocar por um modelo mais potente; o celular mais avançado; a roupa da moda para parecer igual às bonecas produzidas em série, sem nenhuma graça; trabalhar para colocar o filho na escola ou na universidade mais cara, porque isso traz status (mesmo que não tenham condições de pagar as mensalidades). Enfim, o homem corre sempre atrás dessas efemeridades da vida que não trazem nenhuma felicidade ao seu coração.

        Olhai os pássaros no céu, os lírios nos campos, o brilho da lua e as nuvens com formas de animais. Alguém já viu isso?

        Há um texto circulando na internet sobre um movimento que está em alta atualmente na Europa, chamado Slow Food. Esse movimento defende que as pessoas devem comer e beber devagar, saboreando os alimentos, aproveitando o preparo, no convívio com a família e os amigos, sem pressa e valorizando a qualidade.

       A ideia é se opor ao espírito do Fast Food e o que ele representa como estilo de vida. A surpresa, no entanto, é que o movimento Slow Food está servindo de base para um movimento maior chamado Slow Europe. A essência desse movimento está em questionar a "pressa" e a  "loucura" causadas pela globalização, além de criticar o foco na "quantidade do ter", que contrasta com a busca pela qualidade de vida e pela  "qualidade do ser".

      Essa atitude sem pressa não significa fazer menos e produzir menos. Significa, sim, fazer as coisas e trabalhar com mais qualidade e produtividade, com perfeição, atenção aos detalhes e menos estresse.

     Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do lazer e das pequenas comunidades. Do local presente e concreto, em contraposição ao global – indefinido e anônimo. Significa a retomada dos valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do dia a dia, da simplicidade de viver e conviver, e até da religião e da fé.

    Reserve um momento de tranquilidade para você, longe do barulho da televisão e do rádio. São sempre os mesmos programas, as mesmas músicas e as mesmas propagandas, como outra loja de óculos na cidade, além de celulares e carros. Desligue todos esses aparelhos que se tornaram pseudo-companhias, como se fossem injeções de anestesia. Fique sozinho por alguns instantes e reflita sobre a vida, como você vive, e se realmente é isso que você quer fazer com ela.

    A vida é uma constante repetição de dias, meses, anos, semanas, horas, minutos e segundos. Precisamos nos reinventar a cada dia, com calma e tranquilidade. Transformar o que não está certo, mudar o que precisa ser mudado, deixar de lado o que não nos agrada mais, correr riscos e criar novas ideias. Ajudar as pessoas que precisam, porque, entre tudo o que existe no mundo, o mais valioso é o amor fraterno. Esse amor, que podemos compartilhar com todos, é o verdadeiro sentido da vida. O resto é invenção dos homens.

    "Ainda que eu falasse a língua dos homens, ainda que eu falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria. É só o amor que reconhece o que é a verdade. O amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece."  .[ O Imparcial,30 abril 2006]

Virgínia Maura Martins Ferreira

Jornalista, escritora e instrutora de yoga, apaixonada pelo poder das palavras. Seu maior encanto é a aventura pelo mundo da literatura infantojuvenil. Já tem nove livros publicados: sete em prosa e dois de poemas. Também escreve contos e crônicas, alguns já  publicados em antologias e jornais locais.  Tem curso de Formação de Escritores, pela Metamorfose e Curso de Assessoria de Imprensa, pela Estácio de Sá. Gosta de usar seu tempo para orar, ler, escrever e cuidar da casa. Encontra prazer no silêncio, na comida saudável, na yoga, na meditação, em caminhar ao ar livre, e em apreciar árvores, flores, pássaros e animais, além de tomar banho de mar e de cachoeira.